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A aparição

A aparição

23 março de 2018

Muitos anos depois, adulto e à beira do casamento, no seu primeiro consultório médico, na Praia do Flamengo, onde atendia aos poucos pacientes que pingavam em conta-gotas apertadas, ele haveria de se lembrar daquela noite do distante ano da sua primeira infância, quando teve a visão que o seguiria por toda a vida.

Dormia sempre acompanhado do Bebeto, irmão mais velho três anos, um para baixo e outro para cima, na cama modesta do quarto de costuras da mãe. A janela única dava para o quintal e também fornecia a ele pensamentos voantes a respeito da morte, enquanto observava, de dia, lá ao longe, as procissões acompanhando os ataúdes em direção à morada definitiva, no cemitério atrás da cadeia municipal. Morria-se muito naqueles tempos.

Naquela noite, não sabe o porquê, dormiu só. Talvez o irmão estivesse na casa da avó materna. Foi despertado por movimentação no quarto, no silêncio noturno de cidade do interior. Então viu: eram dois garotos, nus, idades distintas e parecidos entre si, como irmãos. O olhavam amistosamente. Sorriam, curiosos. O maior deles segurava uma tesoura, existente até hoje. Em pânico, pela situação insólita e desconhecida, cobriu todo o corpo e tremeu de medo. Desejou com força que, quando descobrisse novamente o rosto, eles já não estivessem mais lá. Mas estavam. Pôde ver muito bem as suas fisionomias, estranhas àquela época e familiares nos dias que correm.

Não suportando o medo, na sua inocência infantil, adquiriu coragem para juntar firmemente a humilde colcha de retalhos nas mãos e fugir. Correu em direção ao corredor contíguo, na embalada, para o primeiro quarto a que teve acesso. Era o dos seus pais, onde pulou em desespero. Junto e no meio deles recebeu todo o carinho e o conforto e, também, a tentativa de dissuasão, de que não havia ninguém no seu quarto. Eles foram lá conferir e não viram nada, porque eram adultos e não veriam nada mesmo, pois esse tipo de fenômeno é peculiar somente aos espíritos infantis e aos muito idosos.

No consultório na Praia do Flamengo estava, à sua frente, a Dona Alice, sua cliente de número um, que o acompanharia nos anos vindouros. É que o primeiro paciente a maior parte dos médicos não se esquece jamais. E ele não a esqueceu e tornou-se, a partir de então, também amigo e confidente. Ela, vidente e espiritualista desde sempre, o informaria, sem delongas, convicta, de estalo, que o médico teria dois filhos homens e que eles haviam sido apresentados a ele no passado. Disse mais: que haviam pedido, naquela ocasião, aquiescência para a reencarnação.

Distantes anos à frente, toda aquela circunstância e a imagem daquela noite retornariam como um relâmpago para o pai. Ele não deixaria de observar a similitude entre os dois seres daquela particular aparição e os dois queridos meninos, retornando da natação naquela manhã. Eles param e assumem, por instantes, a mesma posição de outrora e o olham, como naquele dia, fazendo-o reviver, espantado, aquela misteriosa situação, incomum e inexplicável para a racionalidade cortical de então.