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Casco vazio de ser humano

Casco vazio de ser humano

23 fevereiro de 2018

[Crônica vencedora do concurso anual da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES) 2003]

A menina estava deitada inconsciente sobre a cama do hospital, que seria também a sua maca fúnebre. Era linda e desabrochava, na sua dúzia de anos, fêmea que provavelmente deixaria, no futuro, muitos homens desejosos de tê-la nos seus mistérios.

Pobre, muito pobre, pegara carona na traseira de um ônibus urbano, junto de outros amigos que dividiam com ela a miséria pelas ruas de Belo Horizonte. Numa curva, caiu no asfalto. Teve traumatismo craniano. Foi considerada em morte cerebral, ao chegar ao pronto-socorro, na Rua Alfredo Balena. Não tinha, na realidade, chance alguma de sobrevivência e poder-se-ia providenciar, desde já, o seu caixão de tamanho médio, preferentemente com motivos femininos, talvez rosa-clarinho com detalhes floridos. E não se esquecer do esquema de proteção para a sua virgindade que seria, como de praxe, maculada pelos ávidos coveiros necrófilos, na primeira noite em que dormisse na sepultura fria de um cemitério estéril.

Mas o jovem médico estava ao seu lado e dava-lhe todo o apoio humano e técnico que julgava correto naquela situação. Lá estava o ventilador mecânico inflando os jovens pulmões, a sonda gástrica nutrindo a menina quase mulher, o catéter venoso com os fármacos adequados, o monitor cardíaco e, de resto, todo o aparato usado nesses casos: um arremedo de árvore de Natal junto do leito na morte iminente.

O médico peleja e sonha com a melhora olhando os cabelos longos e louros da mocinha dispersos no leito. Poderiam estar desalinhados no leito de amor, no futuro, em júbilo e em êxtase, não lhe estivesse a morte tão próxima. Mas estava ali e o seu coração batia, o peito arfava na sincronia da prótese respiratória. O médico novo era um humanista e tinha o compromisso somente com a vida. No entanto ela sofria e não tinha mesmo chance de sobrevivência. Desligaria o respirador, participando da sua morte passiva?

Esta dúvida o atazanava desde que o chefe do plantão a examinara junto com ele. Concordaram que não havia mesmo nenhuma chance de restauração digna e plena daquela pessoa. Experiente e amadurecido, ele deixara para o neófito a tomada da decisão final de mantê-la viva ou liberá-la daquele corpo repleto de estrógenos em telarca.

A despeito de nosso fim ser uma certeza e o seu momento ser incerto, não o era para aquela menina. O médico poderia decidi-la a qualquer instante naquela noite fria de um grande pronto-socorro geral.

O médico medita sobre aquele casco vazio de ser humano e também sobre tantas pessoas que retornaram de profundos estados de coma, dadas como mortas e que viveram ativas e felizes por anos. Pensa a respeito da ilegalidade da eutanásia: cessação da vida praticada por outrem, de forma ativa ou omissiva, a pedido da pessoa. Naquela situação não podia fazê-lo. Era ilegal em todos os países do mundo, mas praticada a despeito disto.

Ela sofre. Ele tem o compromisso com a vida. Ela está em coma depassèt. Além do mais, o chefe da equipe o avisou, minutos antes, que chegara à sala de grandes emergências um pai de família em insuficiência respiratória aguda. O homem necessitava daquele mesmo ventilador acoplado na mocinha para continuar vivendo. Fora trazido pela esposa e tinham quatro filhos pequenos os esperando na casa humilde. E ela está na flor da idade. As ideias passam como relâmpagos pedindo rápidas respostas.

Ele, então, inequivocamente, decide pela vida. Sim, decide pela vida do chefe de família, cujos filhos o esperam sem saber do drama do médico.O homem se encontra agora ofegante, com grave dispneia, a alguns metros dali. Vai e desconecta o respirador do tubo traqueal da jovem. O coração da mocinha continua resistindo e bate mais rápido. Fica assim por mais de vinte longos minutos, em apneia, como que se deliciando com o sofrimento do médico. Só depois diminui a frequência, em ritmo idioventricular, um batimento aqui, outro acolá, como a lembrá-lo de que ele, e somente ele, estava lhe tirando a vida. E que a morte, mesmo bela, suave, tranquila, assistida, sem sofrimento, justa e perfeita é, simplesmente, definitiva.

A menina, enfim, morre. Ele, aliviado, infeliz, cerra-lhe as pálpebras que ocultam pérolas verdes. Vai ao prontuário e, com pesar, constata o óbito, carimba e assina. A seguir, vira-lhe as costas e caminha pelos corredores brancos, amplos e vazios, em direção à sala das grandes emergências onde há um homem que espera por aquele ventilador mecânico e pelo seu parecer.