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Meu pai e a Escorpião

Meu pai e a Escorpião

05 junho de 2018

O filho o havia buscado no setor de cargas do aeroporto de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte. Os dois pegaram o carro, junto do motorista, e seguiram viagem para a fazenda Santa Cruz, em Alvorada, perto de Carangola, onde o pai havia nascido, há setenta e oito anos.

Passava das quatro da manhã quando chegaram em Realeza, na rodovia Rio-Bahia, interior mineiro. O filho desceu sozinho e comprou dois churrasquinhos, como fazia há muito tempo, desde quando era criança e ia com o pai de ônibus para a fazenda. Voltou ao carro e ofereceu um deles ao senhor Jorge, que não o quis, pois nada disse.

Na verdade, não poderia dizer nada mesmo: estava no caixão, embalsamado. Havia morrido no dia anterior em Natal, de infarto no miocárdio, após quase quinze anos em quadro demencial, tipo Mal de Alzheimer.

Os dois foram confidentes e amigos desde sempre e o senhor Jorge havia dito ao Neifinho, muitos anos antes, que gostaria de ser enterrado na fazenda, junto com os seus pais. Naquela ocasião ele cumpria a promessa que fizera ao querido pai e amigo.

Era uma noite muito linda de verão, com a lua cheia e o céu estrelado e, quando pegarem novamente a estrada, o filho ficou cismando: o pai sempre quisera ensiná-lo sobre as estrelas e as constelações mas ele não conseguia ver nada além das tradicionais Três Marias e o Cruzeiro do Sul. Ele insistia e, bom professor, apontava para o firmamento e tentava mostrá-lo a linda constelação de Escorpião, sem êxito.

Essa lembrança voltara e pensou, com pesar, que o pai não poderia mais ensiná-lo. Nunca mais…

Foi quando olhou para o céu, no silêncio daquela estranha madrugada: os seus olhos foram andando a esmo, sem o seu controle e, quando se deu conta, viu, pela primeira vez, a beleza de Escorpião!

Surpreso, virou-se para trás e, para espanto do motorista do carro funerário, conversou com o pai e o agradeceu pela gentileza do último ensinamento recebido.

Soube ali, no caminho para o velório, que o pai e amigo jamais morreria para ele: ficaria sempre vivo na sua mente e no seu coração, para o todo e sempre.