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O coração partido

27 junho de 2018

A Sra. G. estava internada em um grande hospital do Rio de Janeiro devido a pneumonia. Estava evoluindo bem e iria de alta do CTI para o quarto no dia seguinte.

Capixaba, bem-humorada, nonagenária, era minha paciente há mais de vinte e cinco anos (bodas de prata com o médico!). Naquela manhã aconteceu de receber inesperada visita, que lhe trouxe enorme emoção: seu filho (que não via há anos), veio dos EUA visitá-la. Ao vê-lo no seu quarto, uma grande emoção ocorreu-lhe e o seu coração idoso não aguentou. Iniciou fortíssima dor no peito e sentiu-se malíssima. Parecia estar infartando. O seu eletrocardiograma, feito à beira do leito, alterou-se muito e ela foi levada para realizar o cateterismo cardíaco de urgência. Não foram constatadas obstruções nas artérias coronarianas. Ela não havia sofrido um infarto agudo do miocárdio: estava com a “Síndrome do coração partido”, afecção moderna, recente, cada vez mais comum na nossa prática clinica.

A síndrome manifesta-se mais a partir dos 50 anos, mais em mulheres após a menopausa e frente a notícias fortes (ruins ou boas). O quadro clínico é muito parecido com o infarto agudo do miocárdio: dor no peito, sudorese e sensação de morte iminente. O eletrocardiograma altera-de. Mas é o ecocardiograma, exame feito à beira do leito, que selará o diagnóstico. Pode ser fatal, embora a recuperação seja possível, se bem conduzida clinicamente.

São as novas doenças surgindo no rastro do “desenvolvimento”: a tecnologia afastando as pessoas, o egoísmo, as distâncias entre as gentes próximas e a economia do afeto. A maior parte das pessoas quer isso para ela, mas pratica o oposto para o outro. Ninguém quer parabéns pelo WhatsApp e sim receber um abraço apertado; não se aspira um presente caro com um “vale-presente” mas um baratinho, escolhido com carinho e afeto.

O stress excessivo ocasionado pelo isolamento, a sensação de desamparo, do pouco amor, da economia do “tocar”, da avareza do abraço, da modéstia dos sentimentos puros, da economia do afeto…

Quando tudo isso vem pouco, a doença vem muita e para todos, sem distinção.

Não deixemos o nosso coração partir: vamos ao abraço, ao toque, ao amor!