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O LAGO DAS FADAS

30 julho de 2018

O SENHOR Geraldo Domingos disse ao médico, com clareza e bem irritado, que não iria permitir o implante do marcapasso definitivo no seu coração.

Estava com noventa e dois anos. Era lúcido e ativo e fora saudável até dois anos antes, quando foi internado com o quadro de infarto do miocárdio. Tudo havia iniciado após o almoço: sentiu-se indisposto e não quis fazer a sesta, hábito antigo que havia aprendido com o seu avô e reforçado, depois, pelo seu pai. Sentia um peso na boca do estômago e pensou que algum dos alimentos não lhe havia caído bem.

Tomou um antiácido efervescente e não melhorou, ao contrário, estava piorando a cada instante. A sua filha, alarmada, levou-o à emergência do hospital. Fizeram-lhe o eletrocardiograma e colheram amostra de sangue para exames, sendo constatado o infarto agudo do miocárdio.

Teve boa evolução clínica naquela ocasião e saiu do hospital acompanhado da filha e da esposa, um ano mais nova que ele.

Não sentiu mais nada desde aquela época. Acordava cedo, tomava os remédios nas horas certas e fazia caminhadas diárias, junto da esposa e da Mila, sua cachorrinha Cocker Spaniel.

Tudo vinha bem, até que teve o desmaio, na manhã de um sábado, enquanto fazia a feira: caiu no chão e machucou a cabeça. Acudido pelos feirantes, foi chamada a assistência, pelo telefone 192, foi levado ao hospital. Uma jovem médica fez a sutura na sua testa: precisou levar quatro pontos na ferida aberta. Ela fez um elegante relato escrito do que ocorrera, entregou à filha e pediu que ela marcasse uma consulta para o seu pai com o cardiologista. Era preciso elucidar a causa da síncope… 

O Doutor Neif era o médico da família e os recebeu com carinho e alegria, a filha, a esposa e ele, no seu consultório em Copacabana. Abraçou-os, perguntou pela Mila, leu o parecer da médica, ouviu-os com calma, fez várias perguntas e depois pediu que ele se deitasse na maca. Examinou-o dos pés à cabeça. Mediu-lhe a pressão, auscultou-lhe o coração e fez-lhe o eletrocardiograma sob os olhares atentos dos três. O cardiologista analisou tudo com atenção, fez medidas minuciosas no traçado eletrocardiográfico e concluiu que seria preciso o implante do marcapasso definitivo. O coração do idoso estava com os batimentos muito lentos. Era bloqueio cardíaco total.

O Senhor Geraldo mudou a fisionomia de imediato. Ficou desfigurado. Falou que não aceitaria a cirurgia, que já era muito velho, que isso, que aquilo…

O médico quis tranquilizá-lo e explicou como seria a cirurgia: com anestesia local, rápida, com baixo risco e que não o levaria a problemas, mesmo na sua idade avançada. Porém nem ele, nem a filha e, menos ainda, a esposa, conseguiram demovê-lo dessa ideia contrária.

O cardiologista, experiente e tolerante, disse que o compreendia, que respeitava a sua decisão e que o atenderia novamente caso mudasse de opinião.

Aguardaram.

Alguns dias depois, após novo episódio de queda, o senhor Geraldo pediu à filha que o levasse novamente ao médico. Queria falar com ele a sós.
Foi quando o médico soube o motivo da categórica recusa. Ele contou ao geriatra que, antes da aposentadoria, há muitos anos, fora biólogo e havia trabalhado por toda a sua vida na Floresta da Tijuca. E que tivera carinho e cuidado especiais pelo Lago das Fadas, manancial de águas esverdeadas, com grandes eucaliptos que brotam no seu interior, dando-lhe ares de magia. Disse mais: que gostaria de ser cremado – já havia tratado, em segredo, de toda a documentação – e ter as suas cinzas jogadas lá, junto das águas e das fadas. Nesse momento, ele sorriu, descontraído, com o cantinho dos lábios.

Entretanto, ao tratar da papelada – continuou –, foi perguntado se usava marcapasso, pois isso dificultaria a sua cremação, pelo risco de explosão do dispositivo, quando submetido a tão altas temperaturas. Essa era a sua preocupação e o motivo da recusa ao tratamento.

O médico tranquilizou o idoso ao ouvi-lo, entendê-lo e oferecer-lhe a solução para o que o afligia: ao morrer, no futuro longínquo – era o que ambos esperavam –, ele se ocuparia em retirar o dispositivo e, assim, o Senhor Geraldo poderia ser cremado, tendo o seu último desejo atendido.

E assim foi feito, alguns pares de anos depois…