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quase infarto

Quase infarto

09 Fevereiro de 2018

O cardiologista começou a sentir a queimação no meio do peito logo após o café da manhã no hotel. Parecia ser gastrite com intenso refluxo gástrico e ia da boca do estômago até na garganta. Lembrou-se de que estava em uso de anti-inflamatório há três dias (devido a fascite plantar que o incomodava muito), e ainda havia tomado dois copos de suco de laranja ácida minutos antes.

O médico estava em Belo Horizonte e iria ministrar um dos seus tradicionais cursos de eletrocardiogramas para médicos e estudantes de medicina. Assim que chegou ao local, pediu à sua esposa que lhe comprasse um antiácido para aliviar o sintoma. A medicação foi efetiva. Aquilo melhorou e não voltou mais. Passou.

O casal retornou para Juiz de Fora no final daquele sábado e ele estava eufórico, falando do jogo decisivo que iria disputar no dia seguinte. Era o artilheiro do time, fazia boa temporada, estava sem contusões e a sua equipe estava bem, chegando à final do campeonato de futebol. Seria uma disputa duríssima, o outro time era igualmente forte, com muito bons jogadores.

Acordou cedo no domingo, tomou leite e comeu ovos caipiras mexidos e frutas. Escolheu com carinho uma chuteira com as travas mais baixas, adequadas ao campo de grama sintética, fez um post para as redes sociais e, decidido, foi para o Clube do Papo. O bicho iria pegar…

O vestiário masculino estava agitado e os jogadores animados e falastrões. Ele dizia pouco. Estava concentrado. Fez os alongamentos de praxe, calçou os meiões e as chuteiras, vestiu a camisa número dez do time azul e foi para o jogo.

O juiz apitou o início da partida e ele dava o melhor de si para que o time chegasse à vitória: movimentava-se, fazia os deslocamentos laterais, puxava o contra-ataque, disputava com os zagueiros, abria espaços, posicionava-se na área em busca de algum rebote do goleiro…

O jogo tinha muita emoção e era muito dinâmico. Em pouco tempo, ganhavam a partida. Ele jogou bem, deu assistências e fez um belo gol, encobrindo o goleiro e impedindo qualquer reação do adversário. Rumo ao título.

Foi quando voltou a sentir a queimação gástrica, quase ao final do jogo. Ele, então, diminuiu o ritmo, esperou o apito final e saboreou a vitória. Mas não quis ficar para as comemorações junto aos colegas campeões. Não se sentia bem.

Assim que chegou em casa, desconfiado, pediu à mulher que o ajudasse a fazer o seu próprio eletrocardiograma. Deitou-se na maca, passou álcool na pele e ligou os fios nos braços, nas pernas e no tórax. O traçado estava normal. Não tinha quaisquer alterações.

O médico ficou cismando: o cenário clínico parecia ser gastrite ou refluxo, porque melhorava muito com o uso dos antiácidos. Mas também podia ser um quadro de angina no peito, bem mais perigoso e fatal, a despeito do eletrocardiograma ser normal na vigência do mal-estar.

A partir daí, o cardiologista ficou alerta. Algo não estava bem no seu organismo. Sempre fora magro e atlético, alimentava-se pouco, não era diabético, não fumava e a sua pressão era normal. Poderia estar com entupimento nas suas artérias coronárias mesmo sem esses fatores de risco?

Na segunda-feira reiniciou o seu intenso trabalho: consultório de cardiologia, aulas de eletrocardiografia, plantão em unidade cardiointensiva, visitas em domicílio aos doentes muito idosos, consultório de geriatria…Ufa!

No fim de semana seguinte viajou para Tiradentes, palco da celebração dos trinta e três anos de formado em medicina. Os colegas estavam todos lá, alegres e felizes pelo reencontro. Eram amigos há muitos anos, desde os tempos de estudantes na Universidade Federal de Juiz de Fora.

Já era noite quando o som começou a rolar e ele foi dançar com uma das colegas de turma. Durante a primeira música, nada sentiu; porém, na segunda, bem mais rápida, teve um aperto no peito. Parou de dançar no mesmo instante, desculpou-se e foi para o seu quarto, sem que notassem algo. Sozinho no quarto pegou o telefone celular e acessou o aplicativo que lhe permitia fazer o eletrocardiograma (adorava esses avanços da tecnologia). O traçado, dessa feita, estava alterado e ele fez o seu próprio diagnóstico: tinha obstrução nas suas artérias coronárias. Precisava realizar o cateterismo cardíaco com urgência.

Não quis alarmar os colegas médicos. Ficou em relativo repouso e, só no dia seguinte, após retornar a Juiz de Fora, marcou o exame com um médico da sua confiança. O Dr. Leônidas viu graves obstruções coronarianas e uma junta médica decidiu pela imediata ancoragem de três stents na principal artéria que irrigava o seu coração.

O infarto havia rodeado o seu miocárdio desde Belo Horizonte. Esteve na espreita durante a disputa da final do campeonato de futebol e quase o pegou em Tiradentes.